24 de janeiro de 2008

Reminiscências do Passeio a Ilha

A natureza é grande nas coisas grandes e enorme nas coisas pequenas


É com essa citação que um recente -- e ótimo -- filme brasileiro (porque filme nacional é filme brasileiro que não dá certo) abre seu script. Segue-se uma estória tosca passada numa cidadela esquecida, corrupta e povoada por ignorantes -- a começar os protagonistas. Mas é uma estória bela. E cativante, até comovente. Tem também alguns desses carecteres a estória que contarei aqui -- quer dizer, na verdade não contarei nada, apenas me lembrarei -- e na memória, só tem espaço a Beleza . . .


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Este post é sobre saudade, e também sobre lembranças -- o que dá no mesmo. Uma viagem a uma cidade pequena, cuja mera existência é bem pouco conhecida -- mas que não fica em nenhum país, continente algum -- mas nas profundezas, nas raízes do espírito de uma menina . . .


Aliás, há recordação que não seja -- de viagem?!


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Itaguaí é melancólica ao entardecer -- não a melancolia da Natureza, que também é alegre e, passando da vida a morte, devém dia e noite -- Natureza é passagem, nada mais. É também tristíssima, mas na cidade há o pecado: nas vidraças da Paulista, as labaredas de fogo que a decadência do Astro se consomem -- são pura expiação, pelo tanto de desejo do dia . . .


Em Itaguaí, a tristeza é outra: é religiosa, a dor da fé -- o suplício inerente a toda trancendência. Ao anoitecer, principiam os cultos -- as ruas se esvaziam, e os Templos, multíplos pulmões ruidosos da cidadela, arfam num estertor cantos tão desagradáveis quanto apaixonados -- e com tal óopera-bufa, encenada diariamante por milhares de personagens anônimos, esperam um mínimo de compaixão do Pai -- se Ele conseguir segurar o riso . . .


Já foi dito que se o mundo é como que um precipitado da Natureza, o mundo dos deuses é uma sublimação dela -- na cidade, matéria condensada e caída, vê-se o Céu somente entre os prédios -- formando uma seta, que aponta para cima; no meio orgânico, palco e ribalta são um só -- um traz a chuva, o outro, vapor; o corvo desce, a carniça espera -- em Itaguaí, ao crepúsculo, tudo é elevação, espiritualidade ascendente, incenso aos céus: a alma miúda da gente nativa, posta diante a pregação efervecente do Pastor, ebuli em nuvens pouco etéreas de suor que infestam os diminutos e fechados casebres, onde o Pai -- e o exorcismo -- fazem-se presentes . . .

Mas que há -- enfim! -- no coração desse povo, que força terrível leva os que nada entendem ao que nada se pode entender? Ora, se nem Fausto pode saber -- que poderei dizer eu?! Talvez já aí se pressinta a única resposta possível -- nada há para dizer aqui. Coloque algum daqueles rostos suados e sujos e feios diante de tais interrogações -- nada responderão, seus ouvidos grosseiros não foram talhados para tais sutilezas da palavra e do sentido -- Ora, que é o mistério senão aquilo para qual não há palavras?! E, se Deus é o supremo mistério -- que poderiam eles adorar senão -- a si próprios?!



E o mistério é o silêncio, não a espera. Para muitas perguntas, esperamos uma resposta -- ainda que nossa aposta seja em jamais a sabermos! . . . No mistério -- já sabemos que não há resposta -- está dito na própria pergunta . . . É precisamante esta a diferença entre o desconhecido -- e o Belo.


Em Itaguaí, ao entardecer, ouvimos o zumbido das estrelas . . .




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Saíamos de cidade -- a kombi era apertada, estava cheia -- e pelo vidro do motorista feriam meu olhar reflexos cor de ouro queimado, que emanavam do pára-choque da kombi adiante, iluminado pela luz do sol nascente . . . Foi então que, sonolento, lembrei-me dos versos:



Something had changed in that little town, that was what the little girl thought. Something had changed in the entire world, because she was not the same, and so the world was not the same indeed! Snow fell and covered that little girl of ours, what means that the child felt cold and lonely. And so she discovered that some people in that world feel in the same way, and some in this people feel it all the time.


E eu senti a neve, que não era minha -- no alto das montanhas que fecham o horizonte da estrada, a névoa da noite se dissipava -- e então percebi que sair de Itaguaí não era ascender da Natureza à Cultura, mas precisamente o contrário -- era se elevar do significante ao significado, ir aonde ninguém mais irá . . .


Itaguaí é paisagem, nada mais. Sim, foi no seio mais profundo da Natureza, que o homem humano foi forjado: a sociedade, as leis, a arte, a linguagem -- a Cultura, enfim, foi a erva mais daninha que floresceu entre os milenários troncos dos milênios passados! . . . Milênios mais, a Cultura fez-se Natureza, ou quis fazê-lo -- pois, subindo alto nas escadas da Ciência o homem pode novamante ver, por cima de seus altíssimos muros, seu Jardim do Éden pedido, seu paradise lost -- e quis lá buscar sentido para sua vida, significado para seus símbolos coletivos -- suas práticas, valores e verdades -- É Bom, é natural! -- dizia para se legitimar . . .


Contudo, na base de tais escadas -- e dos elevadores, guindastes, arranha-céus . . . -- acumalaram-se, como no fundo do mar, os detritos da vida que borbulhava na superfície: são os preconceitos, morais tão rigídas quanto ultrapassadas e toda sorte de fé-- e pior, prática! -- coercitiva e repressiva -- de tudo! . . . Estamos logo adiante do muro que nos separa da Paraíso -- e por isso mesmo -- nada vemos, nada temos dele! . . . Uma igrejola evangélica, instalada numa casinha se sapê -- enfiada no meio da Mata Atlântica -- Oh, preciosa -- e ao mesmo tempo, suja e abundante --imagem-síntese daqueles meus dias inesquecíveis! . . .


Itaguaí é paisagem -- de tijolos, formando um muro que só não é mais reto, duro e fechado que o espírito de seus cidadãos . . .


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. . . E, no entanto, a Natureza que é em tudo sublime -- daí talvez ser preferível o paganismo, com seus deuses representando as forças naturais a uma religião baseada na transcendência -- no que a Natureza espontaneamante faz, já há divindade suficiente para o mais profundo e espiritual dos espíritos! . . . Refiro-me a essas pedras raras, valiosas que somente vêm a Natureza sob pesadas camadas de terra, sob insuspeitas cascas de treva -- e depois, a borboleta sai do casulo e voa, voa . . . pelo mundo! -- É terrível, é lindo, é incompreensível -- essas pedras, tão duras, belas, brilhantes -- como podem ser abafadas, escondidas por uma matéria que é, em todos os sentidos, inferior a sua pureza tão evidente?! Sim, talvez nunca as conheceríamos se alguém não as encontrasse! . . .


Itaguaí é passagem, nada mais . . .


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Ah, não custa repetir -- esse é um post sobre MUITA saudade, my lovely friends so distant now . . .

4 comentários:

Anônimo disse...

Eu não disse que minha vingança daquele post havia de chegar??

eu não disse?! eu não disse?!

eu sô muito maaaaauu!. . .

Anônimo disse...

Isto foi vingança contra quem?

Achei lindo e estou emocionado. Também te amo.

Sua viagem ao centro da terra deve ter sido chocante, eu devo reconhecer: o Universo parece ter conspirado para pôr você em contato com tudo o que há de mais primitivo no homem, numa viagem só.

Numa só volta, você viu o mistério da fé, o mistério da loucura/embriaguez e o mistério do sexo. Ou seja, entrou em contato com as raízes da sociedade humana.

A fé são os Mistérios de Elêusis, os templos dos deuses; a loucura é a mania, fenômeno natural das sociedades primitivas, encarado misticamente; o sexo, eu não preciso dizer: Freud já o disse em Totem e Tabu.

E achei bem legal a parte sobre o subjetivismo lírico - aquilo de algumas almas iluminadas projetarem sua própria grandeza nas cousas rudes da natureza. Lembrou uma coisa que eu costumava dizer: que a mulher de Meu Guri, a mulher real da favela, seria totalmente incapaz de compreender Meu Guri. Na verdade, ela deve preferir um funk.

P.S. Saneamento Básico é ótimo, vi assim que cheguei em casa, em janeiro.

Anônimo disse...

Pelo que vejo não foi de todo uma má idéia te meter no meu distant world... Isso te proporcionou novas experiências -- bleh! que clichê! -- e fez você escrever um post cult e poético que me fará pensar bastante nas próximas horas.
Eu concordo com seus devaneios, acho eles bem pertinentes. Mas fiquei sinceramente espantada com a sua capacidade de ver beleza naquela... hn... deformidade.
Anyway,para mim aquele passeio foi algo muito mais radical e transformador. E não foi muito... belo. Quer dizer, foi sim. Aliás, vai ser. A transformação ainda não acabou. -- Se tudo der certo, ela se concretizará esse ano. E será linda. Linda.
Mas, voltando a vida real, também estou morrendo de saudade. Mas em breve estaremos todos in the kitchen again!
E vamos ser felizes para sempre...
^^'

Anônimo disse...

Agora eu quero o resto das reminiscências!

Pode ir postando! ^^

;]