Melanconia Não é a percepção da ausência -- real ou imaginária -- do ser amado; antes, defini-se pela quase inescapável sensação de sua total onipresença: na música (triste) que ouço, no que estudei hoje a tarde inteira sem poder escapar à expectativa de vê-la à noite, nas linhas deste blog . . . Ela está em Petrópolis, mas também em todos os lugares com excessão de um -- onde agora vejo minhas linhas tristes, bem diante de mim . . .
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A pasta de rascunhos do blog já esconde mais de trinta abortos -- nunca quis, nunca precisei tanto escrever quanto agora -- e nunca fui tão incapaz! . . . Dariam meninos fortes, de lindos olhos azuis (ou verdes?!) a se divertir eternamente pelas estúpidas e efemêras plagas virtuais da Blogosfera! Sim, porque jamais tomariam mais de uns três minutos dos que se dispusessem a lê-los pelos próximos séculos de internet . . . E jamais saíriam da infância -- só uma criança, e bem burrinha, poderia pensar que algum texto da internet seria capaz de sair dessa feliz -- e idiota -- primeira fase da existência . . .
Mas abortei-os. E, por minha vaidade, jamais deixarão de ser pedaços incompletos e mutilados de carnura discursiva a apodrecer no fundo da lata de lixo de meu espírito . . .
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Não, não se trata de nenhum blá-blá-blá pseudo-drummondiano sobre a incomunicabilidade do sentimento profundo de um sujeito partido sem lugar num mundo sem nenhuma alma quanto menos de retardamento neomarxista choroso -- todo marxista é chorão! -- da dissolução de uma subjetividade fluída numa superestrutura neo-liberal mascaradamente repressiva que a condena ao pessimismo alienante da ideologia pós-moderna . . . Não, não é nada disso, podem respirar aliviados amigos! . . . É só assim:
Tá doendo aqui dentro -- a frase mais dita da História.
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Platão diz que o Amor nos traz um desejo de imortalidade, de perpetuação eterna -- os medíocres satisfazem-no pela carne; os espíritos nobres, relembrando e ascendendo à ideia pura do Belo, buscam imortalizar-se pelas Obras -- a começar o próprio Banquete . . .
Em outras palavras, em minhas palavras: o Amor faz-nos pensar na morte, queremos negá-la, ultrapassá-la -- é o próprio desejo de ir além desse momento . . . Mas, como fazê-lo senão -- morrendo?!
O Amor nos leva a querer morrer -- na vontade e na esperança de que, depois, reste qualquer coisa de nós . . .
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Ética Demonstrada ao Gosto dos Estetas ou Breve Tratado sobre a Relação entre Sentimento e Beleza
rascunho grosseiro
I) O que é Belo?
Não vou definir o conceito central deste tratado: a Beleza. É fácil reduzi-lo à causalidade natural e cultural no caso de corpos humanos ou obras de arte clássica -- mas que não me venham falar de harmonia ou disposição natural enquanto olho à noite para as estrelas! . . .
Portanto, sem defini-la, associaria a Beleza à reação mais comum do homem (a maioria dos homens, vulgares e eruditos) diante dela: o silêncio. Não falo nem em contemplação, mas somente em quietudade de língua e espírito diante do Belo -- natural e artístico.
Talvez assim também devamos nos colocar diante dessa questão -- silenciosamante. E não é precisamante isso o que fizeram os filósofos que aproximaram Beleza de Indefinição?
II) O Belo é imagético
A relativa tensão entre Sentimento e Beleza parece expressão particular de outra bem mais conhecida: Corpo e Alma. Inequivocamente, o Sentimento se liga intimamente ao processos e reações de nosso corpo -- mas, e a Beleza?
O prazer estético parece algo elevado, imaterial, étereo -- próprio, portanto, de nossa parte espiritual. Proponho o contrário: o Belo tem um fundo físico, o Belo é imagem sensível, e somente isso. A hipótese parece óbvia para uma infinidade de casos -- uma pintura, a música, etc -- mas não parece clara para a literatura ou, num nível ainda mais abstrato, a Filosofia -- tomada como fonte de satisfação estética, que é decerto (decreto!) sua formulação mais nobre . . .
Por ora, me limitarei a tratar a questão com dois argumentos bem indesenvolvidos: quanto à literaura, basta notar que o maior prazer não é reconstruir a trama mentalmente, analisando intenções, simbologias, referências . . . Enfim, a leitura mais agradável de um livro passa longe de ser a do crítico literário. Não me parece haver questionamento possível quanto a maior satisfação -- estética, embora não só -- de uma Obra provir do encadeamento imaginativo dos cenários, das falas, das situações . . . e, principalmante, dos sentimentos envolvidos, de senti-los -- sentimentos que também são imagéticos, e logo mostrarei em que sentido.
Quanto a Filosofia, tomo uma posição algo empirista segundo a qual idéias totalmente abstratas não possuem conteúdo -- quanto menos beleza! Logo, o prazer nesce quando começamos a imaginar cenas -- para não dizer sonhar! -- sobre as Meditações Sobre a Filosofia Primeira . . . Esses delírios, num nível mínimo, são mesmo imprescendíveis para a compreensão.
Não vou me aprofundar no assunto, e passo portanto a analisar a relação entre Sentimento e Sensibilidade -- no intuito de determinar o caráter estético do Sentimento.
III) Sentimento e Sensibilidade
Por Sensibilidade indico as impressões recebidas por nossos cinco sentidos. O termo Sentimento é mais vago, e me limito a indicar seu sentido por meio de referências não menos vagas: Sentimentos são as emoções de Amor, Ódio, Alegria, Tristeza, etc; nesse sentido foi utilizado na seção anterior.
Esquematicamente, a relação pode ser assim expressa: a Sensibilidade apreende a matéria do Mundo; o Sentimento, cria a forma. Com isso, não quero indicar que a forma do Mundo são nossas pulsões subjetivas -- mas que essas pulsões são as responsáveis pela a forma que o Mundo toma para nós: afinal, o Mundo é nosso estado de espírito . . .
É necessário um esclarecimento quanto ao binômio forma/conteúdo: ambos são imagens físicas, mas só a forma tem Significado, não é mera percepção impensada, imediatamente esquecida -- como é o caso da matéria. Mas, o que é Significado?
IV) Significação e Beleza
Significar um objeto é fazê-lo conceito, através de um discurso. Num nível primitivo temos uma descrição -- no nível mais elevado, uma obra artística que tem o objeto no centro.
Na seção anterior dissemos que só a forma tem Significação -- portanto, só a forma pode ser Bela. Algo sem Significado, fora do pensamento discursivo, não pode ter Beleza. Se todo Belo é imagético (seção II) então o Belo é uma forma imagética desenvolvida.
V) Sentimento e Beleza
O Sentimento apreende essas formas (seção II), e portanto, é o caminho para a Beleza. Quando sentimos Desejo ou Raiva de alguém estamos sorvemos algo que parece emanar do objeto -- embora lá só haja matéria. Essa forma percebida é desenvolvida em um certo discurso, que dá origem simultânea ao Sentimento e à sensação de Beleza.
Mas -- não tínhamos dito que a Beleza é, essencialmante, Silêncio?!
VI) Sentimento e Descarrilhamento
Incapaz de resolver a questão proposta no final última seção, somos obrigados a abandonar antecipadamante o projeto . . .
Bem, foram só fragmentos -- pausas do terrível Silêncio que acompanha toda expectativa feliz -- e todo desastre inevitável . . .
Mas agora não estamos mais na terceira pessoa do plural -- sou só Eu sozinho, para me arrepender e me castigar -- depois.
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Platão faz um de seus personagens dizer que o Amor aumenta o sentimento de honra dos amantes quando observados pelos amados -- o que é uma forma de dizer que aumenta sua vaidade.
E quando o amado jamais viu seu amante?!
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Mas abortei-os. E, por minha vaidade, jamais deixarão de ser pedaços incompletos e mutilados de carnura discursiva a apodrecer no fundo da lata de lixo de meu espírito . . .
Esse trecho é grotesco, apesar da metáfora . . .
1 de abril de 2008
Fragmentos de um Silêncio Amoroso
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4 comentários:
rapaz...fui lendo e fui lendo e cheguei a minha conclusão de que exatamente no momento em que se fala do amor, a gente não o está sentindo, esá sentindo qlq outra coisa. O sentimento do amor se aproxima sim do desejo do belo como vc falou, mas pra mim vai além, tá mais ligado ao sublime, e na desmedida que esse sublime causa, entre nós e o outro.
Portanto, não dá pra ser traduzido, somente experimentado, ao contrário da dor, que de tanto falamos, sempre e sempre...
Muito bom, Guilherme. Eu guardaria com carinho se fosse você. Algum dia você vai querer lembrar-se das coisas que escreveu nesse post.
Há momentos muito bonitos, alguns até misteriosos - no sentido euripidiano - como os questionamentos ao Banquete e, é claro, a primeira e belíssima definição: a de melancolia.
"Tá doendo aqui dentro" é mesmo a frase mais dita da história. É essa a razão pela qual até hoje não nos esquecemos do dístico de Catulo, aparentemente tão simples e clichê:
Odi et amo. Quare id faciam, fortasse requiris.
Nescio, sed fieri sentio et excrucior.
"Odeio e amo. Por que o faço, podes perguntar;
Não sei, mas sinto que se faz e estou sendo torturado."*
Quanto às afirmações sobre estética, sua imitação e subversão explícita do método geométrico de Espinosa, devo dizer que são bem caóticas e fazem pouco sentido lógico, embora poeticamente tenham bons momentos.
Creio ter sido mais ou menos a sua intenção, mesmo.
"Inequivocamente, o Sentimento se liga intimamente ao processos e reações de nosso corpo"; disto em especial, eu pediria uma demonstração mais eficiente, porque me parece bastante questionável.
Contudo(e acho que você precisa ouvir isso de alguém), concordo com você que é possível falar de amor, e creio que foi precisamente esse o sentimento por trás desse texto. Reconheço-o de longe porque, quando a filosofia cede espaço para a poesia, vemos a phília superar a sóphia. Espero que você entenda o sentido desta última frase com o restante do parágrafo; caso contrário, explicá-lo-ei depois.
Em suma, é um texto excelente... tem virtudes. Não o apague, I beg you.
Arrivederci ;)
*tradução nossa
Concordo plenamente Luiz, e ainda diria que é exatamente este o significado que quis dar -- não muito claramente, admito! -- ao post: perceba que me proponho a fazer um tratado sobre o sentimento mas subitamente digo que não fui capaz . . . E o digo precisamente no momento em que discutia se, afinal, o sentimento é silêncio ou discurso -- por não ser capaz de responder a essa questão, silencio; mas depois continuo a falar, mas sem a pretenção de me explicar ou definir o que tinha dentro de mim. É como se o discurso amoroso tivesse que ser sempre incompleto e mutilado, isto é, somente fragmentário e sugestivo -- daí a autocitação no último trecho: o feto é o próprio post, que escapou, diferentemente dos outros textos engavetados, do aborto . . . E isso por um relaxamento da vaidade, pois, afinal, o amado não estava olhando -- mas, ao mesmo tempo, está um cada linha do texto, fanzendo-o, do começo ao fim -- melancólico . . .
entendi e quando eu entendo, deixo entendido!
uhauhauhahuuha
tens razão!
Não lembro quem disse, mas há uma frase que eu gosto muito: "o sentido é o que escapa"
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