Alguns instantes depois, Beatriz tinha diante dos olhos surpresos um blog -- Crônico Diário. Achou interessante o nome, apesar de um tanto estranho -- estava curiosa, mas também hesitante -- jamais lera algo como a misteriosa mensagem que a conduzira até lá -- e agora sentia uma ponta de arrependimento de não ter logo fechado tudo! -- Mais cuidado!, murmurou baixinho para si.
Mas seus olhos seguiram o passeio.
Logo viu um post com o título O Presente -- dizia assim:
Há muito tempo, num reino distantíssimo daqui -- vivia uma bela princesa num castelo dourado. Era a filha dileta do Rei e de toda Natureza -- os pássaros entoavam cantos para despertá-la, as lebres se deixavam caçar para servi-la e sob seus passos o chão, mesmo o mais estéril -- florescia.
Mas, num dia ensolarado, como eram todos -- entediou-se. Os pássaros cantavam na sua janela e ela já conhecia todas as melodias -- a comida ainda era deliciosa, mas não tinha fome. Decidiu então passear pelo vastíssimo castelo, sem rumo -- foi a cozinha e as empregadas se ajoelharam a seus pés; na cocheira, os cavalos se abaixaram para que pudesse montá-los -- e tudo aquilo só a cansava mais e mais -- Oh! Como tudo é sempre igual e chato! -- suspirava a toda instante . . .
É então que nossa estória começa: vagou muito pelo castelo e chegou até o distante quarto abandonado do cavaleiro-aprendiz, agora coberto de folhas secas e teias de aranha -- na parede havia ainda um espelho que fora do jovem guerreiro -- mas no canto, como que saindo de trás do vidro -- a menina viu uma fita, semelhante àquelas que usava por trás da cabeça, para ornar o cabelo.
Pensou em puxá-la -- como sua fita poderia estar lá?! -- mas então algo a deteve: o Monstro da Urna! -- Não, nenhuma criatura diabólica a atacou; essa estória não é tão tosca assim! -- Foi uma lembrança, de uma lenda que ouvira quando pequena:
Dizia-se que nas catacumbas do castelo vivia há séculos um monstro -- que, como todo monstro de estória de castelo e princesa -- era mau, muito mau! . . . Mas esse tinha um pouco de diferente: era feito de papel de embrulho e nunca tocava em suas vítimas -- matava-as por dentro, só lhe interessavam suas almas -- quando notava algum inocente que, por descuido ou curiosidade indevida, entrara em seu calabouço -- abria sua enorme boca e, além do bafo acumulado de séculos, berrava um fogo que não tinha calor -- era todo de palavras, quentes como brasa! . . .
É que a solidão e o silêncio do confinamento haviam aprimorado a audição daquela criatura sombria a ponto de ser capaz de ouvir as coisas ditas mais baixo, com a mão escondendo a boca -- as intrigas mais venenosas! Quando sentia alguma alma em sua escuridão, aproximava-se e começava a reproduzir tudo de ruim, perverso e insensível que ouvira o inocente indefeso dizer! . . . Bem, talvez não tão inocente assim -- e tampouco indefeso, afinal o monstro apenas repetia, jamais dissera algo que não ouvira antes da própria vítima. . . A pessoa era atacada por suas próprias palavras e sucumbia -- ninguém jamais conseguira resistir -- a si própria!
Então, talvez o monstro nem fosse tão monstro assim; as pessoas que eram más -- e talvez esse também não seja um contos de fadas . . .Ou talvez ainda possa ser -- mas isso não importa! O que importa é que a princesa empalideceu com tais recordações -- quando criança, às vezes nem dormia com medo do monstro! De fato, nada tinha a temer -- jamais dissera algo de mal -- mas ainda assim tremia agora diante daquele espelho emoldurado! . . .
E não era a primeira vez que se via naquela moldura -- não foi por coincidência que seu desalento a levou àquele quarto dentre as centenas que havia em seu castelo. O cavaleiro havia sido seu primeiro namorado, quando eram crianças -- e não mais parou de pensar naqueles dias, naqueles tempos . . . Sempre que sentia-se só, era aquele seu refúgio -- e a lembrança, a companhia -- onde sentava-se diante do espelho para chorar -- e vendo-se em lágrimas, imaginava que ele a observava, que pensava nela naquele exato instante, enquanto ela pensava nele -- e era esse seu consolo . . .
Com tais pensamentos a princesa juntou ao tédio, que já a entorpecia, uma aguda saudade -- de um tempo em que os jardins do castelo pareciam um mundo infinito a explorar -- era pequena demais para ver as grades ao fundo! . . . E havia aquela fita misteriosa -- e ao mesmo tempo, familiar -- que, como uma chama branca, via se estender do canto de sua imagem triste no espelho -- E aquela estória ridícula do monstro, já passara da idade de acreditar nessas crendices! -- Uma vez, disse-lhe sua ama:
Neste castelo, cuidado com as passagens secretas -- das paredes e das pessoas -- o monstro nunca perdoa!
E a princesa jamais fora maldosa com alguém, nunca contava as confissões que ouvia ou inventava coisas -- E aquela fita, aquela fita . . . -- O Cavaleiro de Hypnópolis, como era chamado, antes de sair do castelo -- expulso pelo Rei, que não o queria com sua filha -- disse-lhe que ela receberia um Presente, que a levaria até ele -- mais nova, esperara tanto! . . . E agora, ele podia tê-lo deixado ali ou o Rei ter escondido o Presente por trás do espelho ou ... ou ... ou -- puxar aquela fita poderia levá-la direto ao monstro! . . .
Ah, tudo é tão confuso!
Foi o que Beatriz pensou, notando a agitação que tudo aquilo produzira nela -- o estranhíssimo scrap que jurava ser vírus ou -- quando muito -- mais um spam de mulher pelada, depois esse texto interminável sobre monstros feitos de papel de embrulhar e fitas de cabelo saíndo de espelhos!...Quem é o autor, afinal? É alguma brincadeira, por acaso?!
Não sabia, tinha medo.
Devo comentar??...Ou fechar tudo e esquecer logo o louco que deve estar por trás de toda essa estória??!!
Qual é o número da polícia mesmo?!
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Não sabia muito bem o que pensar de tudo aquilo -- tinha escrito por impulso, sem nem revisar direto -- e o sentido do texto lhe parecia tão obscuro quanto o sentido de toda aquela idéia louca que tivera há poucos dias -- e que, no entanto, parecia tê-lo acompanhado desde sempre . . .
O post saiu na sexta-feira depois do carnaval -- tinha terminado de costurar aquela Fantasia muito tarde para a festa daquele ano . . .
Terá sido tarde demais?!
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. . . nobody knows the way it´s gonna be!
1 de fevereiro de 2008
O Presente
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Um comentário:
Eis minha divina comédia! . . .
. . . and after all, she still makes me happy! . . .
É ela meu Presente!
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