E essa noite pude enfim ver o Sol por trás dos prédios paulistanos. Estava no ônibus e, de repente, todas as janelas estavam abertas -- para um vento que vinha de fora, vento fresco contra um ar tão viciado . . . E agora devo escrever uma carta que seja ao mesmo tempo todas as cartas de amor já escritas -- pois a destinatária é toda a Beleza que já pude ver! Não será espontânea, decerto, pois nada do que a Natureza faz de melhor é espontâneo -- e, no entanto, será absolutamente verdadeira! Não essa verdade subjetiva (e, portanto, finita e parcial) que o idiota chama de sinceridade mas a verdade real do a Natureza tem como fim (pois só os fins são infinitos) -- e eu falo da Beleza.
Sim, Beatriz, farei o melhor que puder mas que triste que tenhas por amante este poeta tão pobre! Tantos te cercam, algum decerto mais talentoso que eu -- por que já não te escreveram?! Talvez a Natureza tenha mesmo me destinado para tanto . . . Queria dar-te a Natureza inteira como presente (que belo poema seria!), afinal Ela já dera o melhor de si para te gerar -- mas não posso além do melhor de minha própria Natureza, e é tão pouco! . . .
Oh Ideal-Real de luz, não és mais uma idéia em minha mente retorcida -- Minerva já se libertou de Júpiter! E, no entanto, tudo o que quero é prender-te . . . És real, sim, mas não te sinto como esse teclado sujo sob meus dedos ou como o próprio desejo em meu corpo -- és real como o Número, o Triângulo e o Universal: exatas, tuas feições são clássicas; lógica, a esperança traça meu caminho; unas, são todas as minhas palavras para ti! . . .
30 de abril de 2008
Beatrix I
10 de abril de 2008
O fim do percurso
Já vou dormir; percorro os últimos blogs como quem fecha as janelas da casa: aqui nada novo, lá um post em algo instigante, profundo, noturno. Mas não sei explicar no quê na caixa de comentários. Vejo se me lincaram naquele blog -- de novo, nada.
Ouço o OK Computer em meu headphone branco. Nenhum amigo meu ouve mais o OK Computer.
Sempre quis percorrer São Paulo a essa hora: as janelas se apagando, a rua vazia, um milagre acontece entre os mendigos. Abro o fotolog dela, mas não olho agora. Mas eu gosto muito dessa frieza da metrópole: só assim poderia amá-la como Mãe e Medida.
Abro a janela do fotolog, sem querer: e olho.
Meu dia encontra sua medida, está completo, agora cumpri o percurso -- já posso dormir. E sonhar que corro por estradas, ruas e avenidas sem fim, como faço todas as noites.
Depois que desligo o computador e fecho a janela.
1 de abril de 2008
Fragmentos de um Silêncio Amoroso
Melanconia Não é a percepção da ausência -- real ou imaginária -- do ser amado; antes, defini-se pela quase inescapável sensação de sua total onipresença: na música (triste) que ouço, no que estudei hoje a tarde inteira sem poder escapar à expectativa de vê-la à noite, nas linhas deste blog . . . Ela está em Petrópolis, mas também em todos os lugares com excessão de um -- onde agora vejo minhas linhas tristes, bem diante de mim . . .
***
A pasta de rascunhos do blog já esconde mais de trinta abortos -- nunca quis, nunca precisei tanto escrever quanto agora -- e nunca fui tão incapaz! . . . Dariam meninos fortes, de lindos olhos azuis (ou verdes?!) a se divertir eternamente pelas estúpidas e efemêras plagas virtuais da Blogosfera! Sim, porque jamais tomariam mais de uns três minutos dos que se dispusessem a lê-los pelos próximos séculos de internet . . . E jamais saíriam da infância -- só uma criança, e bem burrinha, poderia pensar que algum texto da internet seria capaz de sair dessa feliz -- e idiota -- primeira fase da existência . . .
Mas abortei-os. E, por minha vaidade, jamais deixarão de ser pedaços incompletos e mutilados de carnura discursiva a apodrecer no fundo da lata de lixo de meu espírito . . .
***
Não, não se trata de nenhum blá-blá-blá pseudo-drummondiano sobre a incomunicabilidade do sentimento profundo de um sujeito partido sem lugar num mundo sem nenhuma alma quanto menos de retardamento neomarxista choroso -- todo marxista é chorão! -- da dissolução de uma subjetividade fluída numa superestrutura neo-liberal mascaradamente repressiva que a condena ao pessimismo alienante da ideologia pós-moderna . . . Não, não é nada disso, podem respirar aliviados amigos! . . . É só assim:
Tá doendo aqui dentro -- a frase mais dita da História.
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Platão diz que o Amor nos traz um desejo de imortalidade, de perpetuação eterna -- os medíocres satisfazem-no pela carne; os espíritos nobres, relembrando e ascendendo à ideia pura do Belo, buscam imortalizar-se pelas Obras -- a começar o próprio Banquete . . .
Em outras palavras, em minhas palavras: o Amor faz-nos pensar na morte, queremos negá-la, ultrapassá-la -- é o próprio desejo de ir além desse momento . . . Mas, como fazê-lo senão -- morrendo?!
O Amor nos leva a querer morrer -- na vontade e na esperança de que, depois, reste qualquer coisa de nós . . .
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Ética Demonstrada ao Gosto dos Estetas ou Breve Tratado sobre a Relação entre Sentimento e Beleza
rascunho grosseiro
I) O que é Belo?
Não vou definir o conceito central deste tratado: a Beleza. É fácil reduzi-lo à causalidade natural e cultural no caso de corpos humanos ou obras de arte clássica -- mas que não me venham falar de harmonia ou disposição natural enquanto olho à noite para as estrelas! . . .
Portanto, sem defini-la, associaria a Beleza à reação mais comum do homem (a maioria dos homens, vulgares e eruditos) diante dela: o silêncio. Não falo nem em contemplação, mas somente em quietudade de língua e espírito diante do Belo -- natural e artístico.
Talvez assim também devamos nos colocar diante dessa questão -- silenciosamante. E não é precisamante isso o que fizeram os filósofos que aproximaram Beleza de Indefinição?
II) O Belo é imagético
A relativa tensão entre Sentimento e Beleza parece expressão particular de outra bem mais conhecida: Corpo e Alma. Inequivocamente, o Sentimento se liga intimamente ao processos e reações de nosso corpo -- mas, e a Beleza?
O prazer estético parece algo elevado, imaterial, étereo -- próprio, portanto, de nossa parte espiritual. Proponho o contrário: o Belo tem um fundo físico, o Belo é imagem sensível, e somente isso. A hipótese parece óbvia para uma infinidade de casos -- uma pintura, a música, etc -- mas não parece clara para a literatura ou, num nível ainda mais abstrato, a Filosofia -- tomada como fonte de satisfação estética, que é decerto (decreto!) sua formulação mais nobre . . .
Por ora, me limitarei a tratar a questão com dois argumentos bem indesenvolvidos: quanto à literaura, basta notar que o maior prazer não é reconstruir a trama mentalmente, analisando intenções, simbologias, referências . . . Enfim, a leitura mais agradável de um livro passa longe de ser a do crítico literário. Não me parece haver questionamento possível quanto a maior satisfação -- estética, embora não só -- de uma Obra provir do encadeamento imaginativo dos cenários, das falas, das situações . . . e, principalmante, dos sentimentos envolvidos, de senti-los -- sentimentos que também são imagéticos, e logo mostrarei em que sentido.
Quanto a Filosofia, tomo uma posição algo empirista segundo a qual idéias totalmente abstratas não possuem conteúdo -- quanto menos beleza! Logo, o prazer nesce quando começamos a imaginar cenas -- para não dizer sonhar! -- sobre as Meditações Sobre a Filosofia Primeira . . . Esses delírios, num nível mínimo, são mesmo imprescendíveis para a compreensão.
Não vou me aprofundar no assunto, e passo portanto a analisar a relação entre Sentimento e Sensibilidade -- no intuito de determinar o caráter estético do Sentimento.
III) Sentimento e Sensibilidade
Por Sensibilidade indico as impressões recebidas por nossos cinco sentidos. O termo Sentimento é mais vago, e me limito a indicar seu sentido por meio de referências não menos vagas: Sentimentos são as emoções de Amor, Ódio, Alegria, Tristeza, etc; nesse sentido foi utilizado na seção anterior.
Esquematicamente, a relação pode ser assim expressa: a Sensibilidade apreende a matéria do Mundo; o Sentimento, cria a forma. Com isso, não quero indicar que a forma do Mundo são nossas pulsões subjetivas -- mas que essas pulsões são as responsáveis pela a forma que o Mundo toma para nós: afinal, o Mundo é nosso estado de espírito . . .
É necessário um esclarecimento quanto ao binômio forma/conteúdo: ambos são imagens físicas, mas só a forma tem Significado, não é mera percepção impensada, imediatamente esquecida -- como é o caso da matéria. Mas, o que é Significado?
IV) Significação e Beleza
Significar um objeto é fazê-lo conceito, através de um discurso. Num nível primitivo temos uma descrição -- no nível mais elevado, uma obra artística que tem o objeto no centro.
Na seção anterior dissemos que só a forma tem Significação -- portanto, só a forma pode ser Bela. Algo sem Significado, fora do pensamento discursivo, não pode ter Beleza. Se todo Belo é imagético (seção II) então o Belo é uma forma imagética desenvolvida.
V) Sentimento e Beleza
O Sentimento apreende essas formas (seção II), e portanto, é o caminho para a Beleza. Quando sentimos Desejo ou Raiva de alguém estamos sorvemos algo que parece emanar do objeto -- embora lá só haja matéria. Essa forma percebida é desenvolvida em um certo discurso, que dá origem simultânea ao Sentimento e à sensação de Beleza.
Mas -- não tínhamos dito que a Beleza é, essencialmante, Silêncio?!
VI) Sentimento e Descarrilhamento
Incapaz de resolver a questão proposta no final última seção, somos obrigados a abandonar antecipadamante o projeto . . .
Bem, foram só fragmentos -- pausas do terrível Silêncio que acompanha toda expectativa feliz -- e todo desastre inevitável . . .
Mas agora não estamos mais na terceira pessoa do plural -- sou só Eu sozinho, para me arrepender e me castigar -- depois.
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Platão faz um de seus personagens dizer que o Amor aumenta o sentimento de honra dos amantes quando observados pelos amados -- o que é uma forma de dizer que aumenta sua vaidade.
E quando o amado jamais viu seu amante?!
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Mas abortei-os. E, por minha vaidade, jamais deixarão de ser pedaços incompletos e mutilados de carnura discursiva a apodrecer no fundo da lata de lixo de meu espírito . . .
Esse trecho é grotesco, apesar da metáfora . . .