27 de março de 2008

Algo sob o frio

Vim escrever porque estava me sentindo só.

Não, não vim choramingar ou chamar por alguém. Tampouco vim com aquele papo de as palavras são minha única compania. Ou meus únicos amigos. Ou minhas únicas amantes.

Não.

Escrevo porque minha solidão é muito bonita. Bonita mesmo, de chorar até . . . Me sinto envolvido por ela como por meu lençol fino, quando a noite está fria -- e como está frio! . . . A pele arrepiada, a carne fria, sonolento -- e não consigo dormir! . . .

***

Agora mesmo tentava ler Kant. Kant é díficil de ler. Eu não consigo ler Kant.

Mas gosto dele.

Ele denunciou os metafísicos e quis desacreditar seus discursos. Dizia que eles só falavam merda; falavam do que não sabiam. Havia qualquer coisa de espontâneo neles que irritava o Kant.

Eu não me irrito com espontaneidade.

Às vezes invejo, mas não me irrito. Tem uma pessoa com quem divido a melhor parte de mim que é muito espontânea. Sempre tentei me convencer que, se ele mostrava tanto, é porque não tinha mais nada dentro de si. Não podia ter!

Sempre soube que tinha muito mais que Eu, o Taciturno.

***

Às vezes sou sincero, mas nunca completamente.

***

Eu amo uma garota, mas ela não me conhece. Nunca nem viu.

Eu vejo ela todos os dias. Ela é feliz. Ela é burra. Ela sorri.

Ela tem olhos verdes.

Eu olho para as estrelas antes de dormir.

***

Olho para uma foto dela. Diz que sente saudade.

Ouço she loves you e sou tomado de uma felicidade impossível, toda de esperança verde.

Quero minha língua bem fundo nela.

***

. . . Então, como explicava antes -- a garota da neve é, afinal, meu amigo. . .

E, numa referência obscura: Teus segredos são todos meus agora! . . .

***

Afinal, devo também gostar de frio . . .


ps: O post abaixo é carta que escrevi para ela. Nunca leu, dizem.