30 de abril de 2008

Beatrix I

E essa noite pude enfim ver o Sol por trás dos prédios paulistanos. Estava no ônibus e, de repente, todas as janelas estavam abertas -- para um vento que vinha de fora, vento fresco contra um ar tão viciado . . . E agora devo escrever uma carta que seja ao mesmo tempo todas as cartas de amor já escritas -- pois a destinatária é toda a Beleza que já pude ver! Não será espontânea, decerto, pois nada do que a Natureza faz de melhor é espontâneo -- e, no entanto, será absolutamente verdadeira! Não essa verdade subjetiva (e, portanto, finita e parcial) que o idiota chama de sinceridade mas a verdade real do a Natureza tem como fim (pois só os fins são infinitos) -- e eu falo da Beleza.

Sim, Beatriz, farei o melhor que puder mas que triste que tenhas por amante este poeta tão pobre! Tantos te cercam, algum decerto mais talentoso que eu -- por que já não te escreveram?! Talvez a Natureza tenha mesmo me destinado para tanto . . . Queria dar-te a Natureza inteira como presente (que belo poema seria!), afinal Ela já dera o melhor de si para te gerar -- mas não posso além do melhor de minha própria Natureza, e é tão pouco! . . .

Oh Ideal-Real de luz, não és mais uma idéia em minha mente retorcida -- Minerva já se libertou de Júpiter! E, no entanto, tudo o que quero é prender-te . . . És real, sim, mas não te sinto como esse teclado sujo sob meus dedos ou como o próprio desejo em meu corpo -- és real como o Número, o Triângulo e o Universal: exatas, tuas feições são clássicas; lógica, a esperança traça meu caminho; unas, são todas as minhas palavras para ti! . . .

10 de abril de 2008

O fim do percurso

Já vou dormir; percorro os últimos blogs como quem fecha as janelas da casa: aqui nada novo, lá um post em algo instigante, profundo, noturno. Mas não sei explicar no quê na caixa de comentários. Vejo se me lincaram naquele blog -- de novo, nada.

Ouço o OK Computer em meu headphone branco. Nenhum amigo meu ouve mais o OK Computer.

Sempre quis percorrer São Paulo a essa hora: as janelas se apagando, a rua vazia, um milagre acontece entre os mendigos. Abro o fotolog dela, mas não olho agora. Mas eu gosto muito dessa frieza da metrópole: só assim poderia amá-la como Mãe e Medida.

Abro a janela do fotolog, sem querer: e olho.

Meu dia encontra sua medida, está completo, agora cumpri o percurso -- já posso dormir. E sonhar que corro por estradas, ruas e avenidas sem fim, como faço todas as noites.

Depois que desligo o computador e fecho a janela.

1 de abril de 2008

Fragmentos de um Silêncio Amoroso

Melanconia Não é a percepção da ausência -- real ou imaginária -- do ser amado; antes, defini-se pela quase inescapável sensação de sua total onipresença: na música (triste) que ouço, no que estudei hoje a tarde inteira sem poder escapar à expectativa de vê-la à noite, nas linhas deste blog . . . Ela está em Petrópolis, mas também em todos os lugares com excessão de um -- onde agora vejo minhas linhas tristes, bem diante de mim . . .

***

A pasta de rascunhos do blog já esconde mais de trinta abortos -- nunca quis, nunca precisei tanto escrever quanto agora -- e nunca fui tão incapaz! . . . Dariam meninos fortes, de lindos olhos azuis (ou verdes?!) a se divertir eternamente pelas estúpidas e efemêras plagas virtuais da Blogosfera! Sim, porque jamais tomariam mais de uns três minutos dos que se dispusessem a lê-los pelos próximos séculos de internet . . . E jamais saíriam da infância -- só uma criança, e bem burrinha, poderia pensar que algum texto da internet seria capaz de sair dessa feliz -- e idiota -- primeira fase da existência . . .

Mas abortei-os. E, por minha vaidade, jamais deixarão de ser pedaços incompletos e mutilados de carnura discursiva a apodrecer no fundo da lata de lixo de meu espírito . . .

***

Não, não se trata de nenhum blá-blá-blá pseudo-drummondiano sobre a incomunicabilidade do sentimento profundo de um sujeito partido sem lugar num mundo sem nenhuma alma quanto menos de retardamento neomarxista choroso -- todo marxista é chorão! -- da dissolução de uma subjetividade fluída numa superestrutura neo-liberal mascaradamente repressiva que a condena ao pessimismo alienante da ideologia pós-moderna . . . Não, não é nada disso, podem respirar aliviados amigos! . . . É só assim:

Tá doendo aqui dentro -- a frase mais dita da História.

***

Platão diz que o Amor nos traz um desejo de imortalidade, de perpetuação eterna -- os medíocres satisfazem-no pela carne; os espíritos nobres, relembrando e ascendendo à ideia pura do Belo, buscam imortalizar-se pelas Obras -- a começar o próprio Banquete . . .

Em outras palavras, em minhas palavras: o Amor faz-nos pensar na morte, queremos negá-la, ultrapassá-la -- é o próprio desejo de ir além desse momento . . . Mas, como fazê-lo senão -- morrendo?!

O Amor nos leva a querer morrer -- na vontade e na esperança de que, depois, reste qualquer coisa de nós . . .

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Ética Demonstrada ao Gosto dos Estetas ou Breve Tratado sobre a Relação entre Sentimento e Beleza

rascunho grosseiro

I) O que é Belo?

Não vou definir o conceito central deste tratado: a Beleza. É fácil reduzi-lo à causalidade natural e cultural no caso de corpos humanos ou obras de arte clássica -- mas que não me venham falar de harmonia ou disposição natural enquanto olho à noite para as estrelas! . . .

Portanto, sem defini-la, associaria a Beleza à reação mais comum do homem (a maioria dos homens, vulgares e eruditos) diante dela: o silêncio. Não falo nem em contemplação, mas somente em quietudade de língua e espírito diante do Belo -- natural e artístico.

Talvez assim também devamos nos colocar diante dessa questão -- silenciosamante. E não é precisamante isso o que fizeram os filósofos que aproximaram Beleza de Indefinição?

II) O Belo é imagético

A relativa tensão entre Sentimento e Beleza parece expressão particular de outra bem mais conhecida: Corpo e Alma. Inequivocamente, o Sentimento se liga intimamente ao processos e reações de nosso corpo -- mas, e a Beleza?

O prazer estético parece algo elevado, imaterial, étereo -- próprio, portanto, de nossa parte espiritual. Proponho o contrário: o Belo tem um fundo físico, o Belo é imagem sensível, e somente isso. A hipótese parece óbvia para uma infinidade de casos -- uma pintura, a música, etc -- mas não parece clara para a literatura ou, num nível ainda mais abstrato, a Filosofia -- tomada como fonte de satisfação estética, que é decerto (decreto!) sua formulação mais nobre . . .

Por ora, me limitarei a tratar a questão com dois argumentos bem indesenvolvidos: quanto à literaura, basta notar que o maior prazer não é reconstruir a trama mentalmente, analisando intenções, simbologias, referências . . . Enfim, a leitura mais agradável de um livro passa longe de ser a do crítico literário. Não me parece haver questionamento possível quanto a maior satisfação -- estética, embora não só -- de uma Obra provir do encadeamento imaginativo dos cenários, das falas, das situações . . . e, principalmante, dos sentimentos envolvidos, de senti-los -- sentimentos que também são imagéticos, e logo mostrarei em que sentido.

Quanto a Filosofia, tomo uma posição algo empirista segundo a qual idéias totalmente abstratas não possuem conteúdo -- quanto menos beleza! Logo, o prazer nesce quando começamos a imaginar cenas -- para não dizer sonhar! -- sobre as Meditações Sobre a Filosofia Primeira . . . Esses delírios, num nível mínimo, são mesmo imprescendíveis para a compreensão.

Não vou me aprofundar no assunto, e passo portanto a analisar a relação entre Sentimento e Sensibilidade -- no intuito de determinar o caráter estético do Sentimento.

III) Sentimento e Sensibilidade

Por Sensibilidade indico as impressões recebidas por nossos cinco sentidos. O termo Sentimento é mais vago, e me limito a indicar seu sentido por meio de referências não menos vagas: Sentimentos são as emoções de Amor, Ódio, Alegria, Tristeza, etc; nesse sentido foi utilizado na seção anterior.

Esquematicamente, a relação pode ser assim expressa: a Sensibilidade apreende a matéria do Mundo; o Sentimento, cria a forma. Com isso, não quero indicar que a forma do Mundo são nossas pulsões subjetivas -- mas que essas pulsões são as responsáveis pela a forma que o Mundo toma para nós: afinal, o Mundo é nosso estado de espírito . . .

É necessário um esclarecimento quanto ao binômio forma/conteúdo: ambos são imagens físicas, mas só a forma tem Significado, não é mera percepção impensada, imediatamente esquecida -- como é o caso da matéria. Mas, o que é Significado?

IV) Significação e Beleza

Significar um objeto é fazê-lo conceito, através de um discurso. Num nível primitivo temos uma descrição -- no nível mais elevado, uma obra artística que tem o objeto no centro.

Na seção anterior dissemos que só a forma tem Significação -- portanto, só a forma pode ser Bela. Algo sem Significado, fora do pensamento discursivo, não pode ter Beleza. Se todo Belo é imagético (seção II) então o Belo é uma forma imagética desenvolvida.

V) Sentimento e Beleza

O Sentimento apreende essas formas (seção II), e portanto, é o caminho para a Beleza. Quando sentimos Desejo ou Raiva de alguém estamos sorvemos algo que parece emanar do objeto -- embora lá só haja matéria. Essa forma percebida é desenvolvida em um certo discurso, que dá origem simultânea ao Sentimento e à sensação de Beleza.

Mas -- não tínhamos dito que a Beleza é, essencialmante, Silêncio?!

VI) Sentimento e Descarrilhamento

Incapaz de resolver a questão proposta no final última seção, somos obrigados a abandonar antecipadamante o projeto . . .

Bem, foram só fragmentos -- pausas do terrível Silêncio que acompanha toda expectativa feliz -- e todo desastre inevitável . . .

Mas agora não estamos mais na terceira pessoa do plural -- sou só Eu sozinho, para me arrepender e me castigar -- depois.

***

Platão faz um de seus personagens dizer que o Amor aumenta o sentimento de honra dos amantes quando observados pelos amados -- o que é uma forma de dizer que aumenta sua vaidade.

E quando o amado jamais viu seu amante?!

***

Mas abortei-os. E, por minha vaidade, jamais deixarão de ser pedaços incompletos e mutilados de carnura discursiva a apodrecer no fundo da lata de lixo de meu espírito . . .

Esse trecho é grotesco, apesar da metáfora . . .

27 de março de 2008

Algo sob o frio

Vim escrever porque estava me sentindo só.

Não, não vim choramingar ou chamar por alguém. Tampouco vim com aquele papo de as palavras são minha única compania. Ou meus únicos amigos. Ou minhas únicas amantes.

Não.

Escrevo porque minha solidão é muito bonita. Bonita mesmo, de chorar até . . . Me sinto envolvido por ela como por meu lençol fino, quando a noite está fria -- e como está frio! . . . A pele arrepiada, a carne fria, sonolento -- e não consigo dormir! . . .

***

Agora mesmo tentava ler Kant. Kant é díficil de ler. Eu não consigo ler Kant.

Mas gosto dele.

Ele denunciou os metafísicos e quis desacreditar seus discursos. Dizia que eles só falavam merda; falavam do que não sabiam. Havia qualquer coisa de espontâneo neles que irritava o Kant.

Eu não me irrito com espontaneidade.

Às vezes invejo, mas não me irrito. Tem uma pessoa com quem divido a melhor parte de mim que é muito espontânea. Sempre tentei me convencer que, se ele mostrava tanto, é porque não tinha mais nada dentro de si. Não podia ter!

Sempre soube que tinha muito mais que Eu, o Taciturno.

***

Às vezes sou sincero, mas nunca completamente.

***

Eu amo uma garota, mas ela não me conhece. Nunca nem viu.

Eu vejo ela todos os dias. Ela é feliz. Ela é burra. Ela sorri.

Ela tem olhos verdes.

Eu olho para as estrelas antes de dormir.

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Olho para uma foto dela. Diz que sente saudade.

Ouço she loves you e sou tomado de uma felicidade impossível, toda de esperança verde.

Quero minha língua bem fundo nela.

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. . . Então, como explicava antes -- a garota da neve é, afinal, meu amigo. . .

E, numa referência obscura: Teus segredos são todos meus agora! . . .

***

Afinal, devo também gostar de frio . . .


ps: O post abaixo é carta que escrevi para ela. Nunca leu, dizem.

1 de fevereiro de 2008

O Presente

Alguns instantes depois, Beatriz tinha diante dos olhos surpresos um blog -- Crônico Diário. Achou interessante o nome, apesar de um tanto estranho -- estava curiosa, mas também hesitante -- jamais lera algo como a misteriosa mensagem que a conduzira até lá -- e agora sentia uma ponta de arrependimento de não ter logo fechado tudo! -- Mais cuidado!, murmurou baixinho para si.

Mas seus olhos seguiram o passeio.

Logo viu um post com o título
O Presente -- dizia assim:

Há muito tempo, num reino distantíssimo daqui -- vivia uma bela princesa num castelo dourado. Era a filha dileta do Rei e de toda Natureza -- os pássaros entoavam cantos para despertá-la, as lebres se deixavam caçar para servi-la e sob seus passos o chão, mesmo o mais estéril -- florescia.

Mas, num dia ensolarado, como eram todos -- entediou-se. Os pássaros cantavam na sua janela e ela já conhecia todas as melodias -- a comida ainda era deliciosa, mas não tinha fome. Decidiu então passear pelo vastíssimo castelo, sem rumo -- foi a cozinha e as empregadas se ajoelharam a seus pés; na cocheira, os cavalos se abaixaram para que pudesse montá-los -- e tudo aquilo só a cansava mais e mais -- Oh! Como tudo é sempre igual e chato! -- suspirava a toda instante . . .

É então que nossa estória começa: vagou muito pelo castelo e chegou até o distante quarto abandonado do cavaleiro-aprendiz, agora coberto de folhas secas e teias de aranha -- na parede havia ainda um espelho que fora do jovem guerreiro -- mas no canto, como que saindo de trás do vidro -- a menina viu uma fita, semelhante àquelas que usava por trás da cabeça, para ornar o cabelo.

Pensou em puxá-la -- como sua fita poderia estar lá?! -- mas então algo a deteve: o Monstro da Urna! -- Não, nenhuma criatura diabólica a atacou; essa estória não é tão tosca assim! -- Foi uma lembrança, de uma lenda que ouvira quando pequena:

Dizia-se que nas catacumbas do castelo vivia há séculos um monstro -- que, como todo monstro de estória de castelo e princesa -- era mau, muito mau! . . . Mas esse tinha um pouco de diferente: era feito de papel de embrulho e nunca tocava em suas vítimas -- matava-as por dentro, só lhe interessavam suas almas -- quando notava algum inocente que, por descuido ou curiosidade indevida, entrara em seu calabouço -- abria sua enorme boca e, além do bafo acumulado de séculos, berrava um fogo que não tinha calor -- era todo de palavras, quentes como brasa! . . .

É que a solidão e o silêncio do confinamento haviam aprimorado a audição daquela criatura sombria a ponto de ser capaz de ouvir as coisas ditas mais baixo, com a mão escondendo a boca -- as intrigas mais venenosas! Quando sentia alguma alma em sua escuridão, aproximava-se e começava a reproduzir tudo de ruim, perverso e insensível que ouvira o inocente indefeso dizer! . . . Bem, talvez não tão inocente assim -- e tampouco indefeso, afinal o monstro apenas repetia, jamais dissera algo que não ouvira antes da própria vítima. . . A pessoa era atacada por suas próprias palavras e sucumbia -- ninguém jamais conseguira resistir -- a si própria!

Então, talvez o monstro nem fosse tão monstro assim; as pessoas que eram más -- e talvez esse também não seja um contos de fadas . . .Ou talvez ainda possa ser -- mas isso não importa! O que importa é que a princesa empalideceu com tais recordações -- quando criança, às vezes nem dormia com medo do monstro! De fato, nada tinha a temer -- jamais dissera algo de mal -- mas ainda assim tremia agora diante daquele espelho emoldurado! . . .

E não era a primeira vez que se via naquela moldura -- não foi por coincidência que seu desalento a levou àquele quarto dentre as centenas que havia em seu castelo. O cavaleiro havia sido seu primeiro namorado, quando eram crianças -- e não mais parou de pensar naqueles dias, naqueles tempos . . . Sempre que sentia-se só, era aquele seu refúgio -- e a lembrança, a companhia -- onde sentava-se diante do espelho para chorar -- e vendo-se em lágrimas, imaginava que ele a observava, que pensava nela naquele exato instante, enquanto ela pensava nele -- e era esse seu consolo . . .

Com tais pensamentos a princesa juntou ao tédio, que já a entorpecia, uma aguda saudade -- de um tempo em que os jardins do castelo pareciam um mundo infinito a explorar -- era pequena demais para ver as grades ao fundo! . . . E havia aquela fita misteriosa -- e ao mesmo tempo, familiar -- que, como uma chama branca, via se estender do canto de sua imagem triste no espelho -- E aquela estória ridícula do monstro, já passara da idade de acreditar nessas crendices! -- Uma vez, disse-lhe sua ama:

Neste castelo, cuidado com as passagens secretas -- das paredes e das pessoas -- o monstro nunca perdoa!

E a princesa jamais fora maldosa com alguém, nunca contava as confissões que ouvia ou inventava coisas -- E aquela fita, aquela fita . . . -- O Cavaleiro de Hypnópolis, como era chamado, antes de sair do castelo -- expulso pelo Rei, que não o queria com sua filha -- disse-lhe que ela receberia um Presente, que a levaria até ele -- mais nova, esperara tanto! . . . E agora, ele podia tê-lo deixado ali ou o Rei ter escondido o Presente por trás do espelho ou ... ou ... ou -- puxar aquela fita poderia levá-la direto ao monstro! . . .

Ah, tudo é tão confuso!

Foi o que Beatriz pensou, notando a agitação que tudo aquilo produzira nela -- o estranhíssimo scrap que jurava ser vírus ou -- quando muito -- mais um spam de mulher pelada, depois esse texto interminável sobre monstros feitos de papel de embrulhar e fitas de cabelo saíndo de espelhos!...Quem é o autor, afinal? É alguma brincadeira, por acaso?!

Não sabia, tinha medo.

Devo comentar??...Ou fechar tudo e esquecer logo o louco que deve estar por trás de toda essa estória??!!


Qual é o número da polícia mesmo?!

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Não sabia muito bem o que pensar de tudo aquilo -- tinha escrito por impulso, sem nem revisar direto -- e o sentido do texto lhe parecia tão obscuro quanto o sentido de toda aquela idéia louca que tivera há poucos dias -- e que, no entanto, parecia tê-lo acompanhado desde sempre . . .

O post saiu na sexta-feira depois do carnaval -- tinha terminado de costurar aquela
Fantasia muito tarde para a festa daquele ano . . .

Terá sido tarde demais?!

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. . . nobody knows the way it´s gonna be!

24 de janeiro de 2008

Reminiscências do Passeio a Ilha

A natureza é grande nas coisas grandes e enorme nas coisas pequenas


É com essa citação que um recente -- e ótimo -- filme brasileiro (porque filme nacional é filme brasileiro que não dá certo) abre seu script. Segue-se uma estória tosca passada numa cidadela esquecida, corrupta e povoada por ignorantes -- a começar os protagonistas. Mas é uma estória bela. E cativante, até comovente. Tem também alguns desses carecteres a estória que contarei aqui -- quer dizer, na verdade não contarei nada, apenas me lembrarei -- e na memória, só tem espaço a Beleza . . .


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Este post é sobre saudade, e também sobre lembranças -- o que dá no mesmo. Uma viagem a uma cidade pequena, cuja mera existência é bem pouco conhecida -- mas que não fica em nenhum país, continente algum -- mas nas profundezas, nas raízes do espírito de uma menina . . .


Aliás, há recordação que não seja -- de viagem?!


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Itaguaí é melancólica ao entardecer -- não a melancolia da Natureza, que também é alegre e, passando da vida a morte, devém dia e noite -- Natureza é passagem, nada mais. É também tristíssima, mas na cidade há o pecado: nas vidraças da Paulista, as labaredas de fogo que a decadência do Astro se consomem -- são pura expiação, pelo tanto de desejo do dia . . .


Em Itaguaí, a tristeza é outra: é religiosa, a dor da fé -- o suplício inerente a toda trancendência. Ao anoitecer, principiam os cultos -- as ruas se esvaziam, e os Templos, multíplos pulmões ruidosos da cidadela, arfam num estertor cantos tão desagradáveis quanto apaixonados -- e com tal óopera-bufa, encenada diariamante por milhares de personagens anônimos, esperam um mínimo de compaixão do Pai -- se Ele conseguir segurar o riso . . .


Já foi dito que se o mundo é como que um precipitado da Natureza, o mundo dos deuses é uma sublimação dela -- na cidade, matéria condensada e caída, vê-se o Céu somente entre os prédios -- formando uma seta, que aponta para cima; no meio orgânico, palco e ribalta são um só -- um traz a chuva, o outro, vapor; o corvo desce, a carniça espera -- em Itaguaí, ao crepúsculo, tudo é elevação, espiritualidade ascendente, incenso aos céus: a alma miúda da gente nativa, posta diante a pregação efervecente do Pastor, ebuli em nuvens pouco etéreas de suor que infestam os diminutos e fechados casebres, onde o Pai -- e o exorcismo -- fazem-se presentes . . .

Mas que há -- enfim! -- no coração desse povo, que força terrível leva os que nada entendem ao que nada se pode entender? Ora, se nem Fausto pode saber -- que poderei dizer eu?! Talvez já aí se pressinta a única resposta possível -- nada há para dizer aqui. Coloque algum daqueles rostos suados e sujos e feios diante de tais interrogações -- nada responderão, seus ouvidos grosseiros não foram talhados para tais sutilezas da palavra e do sentido -- Ora, que é o mistério senão aquilo para qual não há palavras?! E, se Deus é o supremo mistério -- que poderiam eles adorar senão -- a si próprios?!



E o mistério é o silêncio, não a espera. Para muitas perguntas, esperamos uma resposta -- ainda que nossa aposta seja em jamais a sabermos! . . . No mistério -- já sabemos que não há resposta -- está dito na própria pergunta . . . É precisamante esta a diferença entre o desconhecido -- e o Belo.


Em Itaguaí, ao entardecer, ouvimos o zumbido das estrelas . . .




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Saíamos de cidade -- a kombi era apertada, estava cheia -- e pelo vidro do motorista feriam meu olhar reflexos cor de ouro queimado, que emanavam do pára-choque da kombi adiante, iluminado pela luz do sol nascente . . . Foi então que, sonolento, lembrei-me dos versos:



Something had changed in that little town, that was what the little girl thought. Something had changed in the entire world, because she was not the same, and so the world was not the same indeed! Snow fell and covered that little girl of ours, what means that the child felt cold and lonely. And so she discovered that some people in that world feel in the same way, and some in this people feel it all the time.


E eu senti a neve, que não era minha -- no alto das montanhas que fecham o horizonte da estrada, a névoa da noite se dissipava -- e então percebi que sair de Itaguaí não era ascender da Natureza à Cultura, mas precisamente o contrário -- era se elevar do significante ao significado, ir aonde ninguém mais irá . . .


Itaguaí é paisagem, nada mais. Sim, foi no seio mais profundo da Natureza, que o homem humano foi forjado: a sociedade, as leis, a arte, a linguagem -- a Cultura, enfim, foi a erva mais daninha que floresceu entre os milenários troncos dos milênios passados! . . . Milênios mais, a Cultura fez-se Natureza, ou quis fazê-lo -- pois, subindo alto nas escadas da Ciência o homem pode novamante ver, por cima de seus altíssimos muros, seu Jardim do Éden pedido, seu paradise lost -- e quis lá buscar sentido para sua vida, significado para seus símbolos coletivos -- suas práticas, valores e verdades -- É Bom, é natural! -- dizia para se legitimar . . .


Contudo, na base de tais escadas -- e dos elevadores, guindastes, arranha-céus . . . -- acumalaram-se, como no fundo do mar, os detritos da vida que borbulhava na superfície: são os preconceitos, morais tão rigídas quanto ultrapassadas e toda sorte de fé-- e pior, prática! -- coercitiva e repressiva -- de tudo! . . . Estamos logo adiante do muro que nos separa da Paraíso -- e por isso mesmo -- nada vemos, nada temos dele! . . . Uma igrejola evangélica, instalada numa casinha se sapê -- enfiada no meio da Mata Atlântica -- Oh, preciosa -- e ao mesmo tempo, suja e abundante --imagem-síntese daqueles meus dias inesquecíveis! . . .


Itaguaí é paisagem -- de tijolos, formando um muro que só não é mais reto, duro e fechado que o espírito de seus cidadãos . . .


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. . . E, no entanto, a Natureza que é em tudo sublime -- daí talvez ser preferível o paganismo, com seus deuses representando as forças naturais a uma religião baseada na transcendência -- no que a Natureza espontaneamante faz, já há divindade suficiente para o mais profundo e espiritual dos espíritos! . . . Refiro-me a essas pedras raras, valiosas que somente vêm a Natureza sob pesadas camadas de terra, sob insuspeitas cascas de treva -- e depois, a borboleta sai do casulo e voa, voa . . . pelo mundo! -- É terrível, é lindo, é incompreensível -- essas pedras, tão duras, belas, brilhantes -- como podem ser abafadas, escondidas por uma matéria que é, em todos os sentidos, inferior a sua pureza tão evidente?! Sim, talvez nunca as conheceríamos se alguém não as encontrasse! . . .


Itaguaí é passagem, nada mais . . .


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Ah, não custa repetir -- esse é um post sobre MUITA saudade, my lovely friends so distant now . . .

17 de janeiro de 2008

Diamante ou Crochê -- é Você quem Escolhe

´stamos em plena Web -- nalgum lugar entre o Uol e o site que vende criancinhas de três anos . . .

eis um Blog!, exclamou o Capitão, com a estranha Pedra na ponta dos dedos -- adorável este!...veja: coloque-o contra a Luz..., segurou a pedra translúcida no alto, tendo no Rosto o Brilho das cores refratadas -- ...e ela vira um Crochê! -- e seu rosto tornou-se Sombrio, face ao Opaco objeto -- que logo voltou a ser Pedra, assim que o Capitão jogou-o no saco Páginas Visitadas . . .

Ah! adoro Costurar!...Meu capitão, faça a Pedra novamente Trama para eu desfazê-la -- e fazer minha Fama!, gritou mary ann, com sua voz estridente e fina, de Menina-anjo -- eu só Gosto do que posso!, e começou a levitar baixinho, de excitação . . .

então, Você não Pode gostar..., resmungou o capitão com Desdém, a Beleza do Diamante está em não poder alterá-lo -- tenha-no na mão, arranhe, esmague, aperte-o até a mão sangrar -- e nada muda na Pedra!, e arrematou, filosófico: quanto mais uma mão quer fazê-lo a sua semelhança -- mais o Diamante se parece consigo próprio! . . .

mary ann baixou ao chão -- estava contrariada: paradoxos! ora, o que atrai no Diamante é Poder fazer qualquer coisa Brilhar -- com ele, Vemos como Belo o que quisermos!... e, depois de uma pausa dramática, disse É essa a Beleza do diamante! com expressão séria . . .

ah, então dizes que Belo no Diamante é seu Brilho! -- podes fazê-lo parar de Brilhar, por acaso?!, mas a menina não respondeu, seu olhos brilhavam!, a Pedra havia caído do saco e -- transfigurando-se de Gênero em Espécie -- a Pedra tornou-se um coruscante Diamante! . . .

Tomou-o nas mãos -- tinha-as muito pequeninas -- e o post fez-se em Descostura